No último domingo, 25 de outubro, os britânicos do Iron Maiden trouxeram sua turnê Run For Your Lives, que comemora os 50 anos da banda, para um lotado estádio Nubank Parque em São Paulo.
Abrindo os trabalhos pontualmente às 19:10, durante 50 minutos os norte-americanos do Alter Bridge apresentaram seu hard rock para uma plateia ainda fria. Com poucas palavras e muita precisão técnica do vocalista e guitarrista Myles Kennedy, o momento de maior participação do público ocorreu durante a bela Blackbird, que arrancou cantorias e celulares acesos nas arquibancadas.
Mas a banda foi um bom bônus, faz um som competente e deve chamar a atenção de vários espectadores para conhece-la melhor depois, na calma e no conforto de casa.
O intervalo de preparação do palco para a grande atração da noite, aparentemente longo, foi o suficiente para uma ida estratégica ao banheiro. Deve-se registrar que os poucos banheiros disponíveis no estádio apresentavam filas enormes e demoradas, algo já costumeiro e que precisa urgentemente ser revisto pelos produtores de todos os shows desse porte no Brasil.
Eis que, após Doctor Doctor ecoar no sistema de som – como já é tradição nos shows do Maiden -, começam os Idos de Março. Essa expressão, que dá nome à tensa faixa de introdução instrumental do álbum Killers (1981), representa a data do assassinato de Júlio Cesar na Roma Antiga e foi imortalizada como presságio para desastres iminentes.
Ou, no caso específico do Iron Maiden, para o espetáculo iminente. O que se viu a partir daí foi uma simbiose perfeita entre banda, palco e público. Os novos telões digitais foram uma marca de inovação e impulsionaram a teatralidade que a banda traz como proposta, tornando ainda mais imersiva a experiência do público.
Além, claro, da voz impressionante de Bruce Dickinson e da límpida execução instrumental dos demais integrantes, mesmo que algumas músicas já sejam tocadas em ritmo menos acelerado do que no passado, e que o novo baterista Simon Dawson seja mais retilíneo do que seu predecessor Nicko McBrain.
Assim, o espetáculo começou com a sequência old school de Murders in the Rue Morgue, Wrathchild, Killers e Phantom of the Opera, que se destacou com a interpretação dramática de Bruce.
Aliás, após ter finalmente tocado Alexander The Great na última turnê, a banda parece ter gostado de incluir as músicas “esquecidas” mais pedidas pelos fãs de longa data: desta vez, Infinite Dreams realizou os sonhos de muitos. A canção ficou ainda mais primorosa ao vivo, fez valer o ingresso e deveria ser presença constante nos setlists futuros.
Dois grandes épicos também podem ser apontados entre os maiores destaques da noite: Seventh Son of a Seventh Son, música muito envolvente e de performance vocal exigente, com Bruce segurando uma nota de cair o queixo; e Rime of the Ancient Mariner, em que o aspecto visual primoroso do telão ajudou a contar a história de forma dinâmica, imersiva e hipnotizante, gerando provavelmente a melhor apresentação ao vivo que os britânicos já realizaram dessa música.
Já os marinheiros de primeira viagem não poderiam ficar sem os maiores hits: uma pletora de clássicos como The Trooper – com direito a bandeira do Brasil -, The Number of the Beast, Run to the Hills, Iron Maiden, Aces High e Hallowed Be Thy Name, com suas encenações típicas, botaram o estádio abaixo.
A verdade é que não houve tempo perdido no show, todo o repertório foi marcante e soou pesado, sendo que o sistema de som bem definido permitia apreciar o pujante baixo de Steve Harris e as guitarras de Dave Murray, Adrian Smith e Janick Gers.
Valeria também mencionar que a chuva deu uma trégua muito bem-vinda durante o evento e que, embora fosse dia de eleições, não houve qualquer tipo de confusão no estádio.
Muito pelo contrário, o dia foi de total alegria e celebração. Quem estava vendo o show do Iron Maiden pela primeira vez irá sempre lembrar como um dos melhores dias da vida, mas nem os mais experientes puderam escapar da catarse coletiva de uma das turnês mais memoráveis da banda em solo brasileiro.

