A cena heavy metal nacional nos brindou com um bom exemplo de saudosismo – que é a valorização em grau supremo do passado – em perfeita sintonia ao frenesi – que se caracteriza por uma movimentação intensa, excesso em uma paixão e desvario – com a reunião da segunda encarnação do Angra, a qual rendeu álbuns de primeira classe tais quais Rebirth (2001) e Temple of Shadows (2004).
O movimento do grupo em desenterrar a formação bem quista pelo público foi deveras inteligente. E mesmo que isso tenha rolado para apenas dois concertos, o ato concedeu ao conjunto um verniz de renovação e renascimento.
E mais que isso, a estratégia foi bem sacada, porque aconteceu concomitantemente à estreia de seu quarto cantor. O êxtase de todo arrasta-pé ajudou arrefecer as possíveis críticas à presença do novo frontman, que ainda não provou seu valor como compositor junto à primeira divisão da cena metal.
Reportar ao passado para criar o presente é uma ação deliberada que muitas bandas já lançaram mão e traz benefícios a curto prazo.
Para quem está dentro deste vórtice, ganhando dinheiro e posando de rock star, a coisa tem arrimos bem-aventurados, porém, a médio e longo prazo, caso o grupo bata nesta tecla sistematicamente, como um rato de laboratório em busca de recompensa, o mofo da inércia criativa se alastra e o fim é lento e progressivo.
A torcida é que o Angra não se torne um eterno baile da saudade, que se pendura nas glórias do passado e oblitera o presente. Esperamos que a renovação do grupo não seja apenas uma perfumaria, mas um passo à frente para a primeira liga do metal mundial.
Tomara que a nova era seja engrandecida por um novo álbum de estúdio, turnês bem produzidas e gestão de negócio amparada por decisões bem tomadas. Aguardemos.
