Ame ou odeie, goste ou não, o festival Rock In Rio é a nossa prata da casa quando se trata de evento musical de grande porte. Ele foi o responsável por colocar o Brasil na rota mundial dos grandes shows. O tórrido caso de amor entre o Iron Maiden e o nosso país, por exemplo, só rolou graças ao evento.
O mesmo pode ser aplicado ao Scorpions, Queen, AC/DC e muitas outras bandas de rock n’ roll e heavy metal que passaram a levar o Brasil a sério, sob o ponto de vista mercadológico, a partir do evento carioca, com isso passaram a marcar presença constante nas bandas de cá, desde então.
Neste ano a festa chegou à sua décima primeira edição – vale lembrar que já rolou arrasta-pé em países como Estados Unidos, Portugal e Espanha – com uma programação para todos os gostos.
No caso da música pesada, que é o objeto de nosso interesse, a farra rolou no último sábado, 5, com uma escalação focada em nomes contemporâneos como Poppy, Bring Me the Horizon, Bad Omens, Machine Gun Kelly, Black Pantera e Nervosa, mas com espaço ao clássico como Sepultura.
Os trabalhos no Palco Sunset começou com a Malvada e Day Limns – e também com o início do expediente da incessante chuva – provendo ao público uma mistura de hardcore e pop rock. Se trata de dois nomes que ainda não provaram criativamente seu valor na cena musical, mas como são calouros, veremos o que o futuro nos reserva. O destaque do show foi o cover de Ovelha Negra, da saudosa Rita Lee.
Na contramão dos dois marruás, o Sepultura tem 42 anos de carreira e uma história primorosa na cena metal mundial. O trabalho dos caras é tão caprichado que eles se deram ao luxo de não tocar nenhum clássico da fase com Max Cavalera. A apresentação no RIR foi essencialmente edificada em sons da era Derrick Green.

Repassando boa parte de tal período, o quarteto tocou Against e Choke para recordar o final dos anos 90; Kairos, Sepulnation e Convicted in Life representaram a década de 2000 enquanto que Means to an End e Phantom Self recordaram os ótimos álbuns Quadra e Machine Messiah, da década de 2020.
E como a ideia era fazer a data especial, o quarteto tocou na íntegra o EP The Cloud of Unknowing, que representa a banda em 2026, com o baterista Greyson Nekrutman. Como o Sepultura vai pendurar o chapéu em novembro, o espetáculo foi o ponto final em uma história de 35 anos com o Rock In Rio.
Depois do veterano Sepultura no Palco Mundo, o Black Pantera elevou a temperatura no Palco Sunset com o apoio da Nervosa. Aos gritos de fogo nos racistas e suporte ao fim da escala 6×1, a dobradinha fez o público dar de ombros à chuva que fez questão de participar do rolê.
O groove metal do Black Pantera, que finca bandeira na ancestralidade e pertencimento em meio a mensagens antirracistas, encontrou sintonia perfeita no thrash metal da Nervosa. Ponto para o festival que acertou nesta escalação.


Para o desespero de quem prefere um erro honesto em detrimento de um acerto falso, Machine Gun Kelly foi o primeiro artista do dia que lançou mão de backing tracks, também conhecidos como faixas de apoio, e playbacks, o que é considerado uma trapaça e um estelionato artístico por muitas pessoas. Mas, em época de IA e afins, uma apresentação genuinamente ao vivo é luxo para poucos.
E este luxo MGK não tem à disposição! Nem a presença da virtuosa Sophie Lloyd, que tem talento suficiente para integrar uma banda da primeira divisão, conseguiu dar um verniz de capricho ao que o “cantor” serviu ao público. E boa parte da galera não chancelou a pataquada do norte-americano que penou para arrancar um e outro sinal de aplauso da galera.
Dizem que cada geração tem o ídolo que merece, assim sendo, é triste ver que um embuste artístico como Poppy representa a nova geração do metal. A barbie roqueira da Shopee utilizou o mesmo expediente de MGK, distribuindo playbacks e backing tracks a torto e a direito.
Teve gente que pouco – ou nada – ligou para este fato, e acabou caindo na farra. No entanto, isto não faz de Moriah Rose Pereira uma artista talentosa. É só mais um produto com data de validade prestes a vencer.
Bring Me The Horizon, sob a batuta de Oli Sykes, também desfilou seus hits repletos de auxílios eletrônicos, o que serve para obturar as deficiências técnicas dos músicos. Diferente de MGK e Poppy, Oli Sykes pelo menos se dá ao trabalho de ser acolhedor com a galera que enfrenta as intempéries para lhe prestigiar.
Pedindo mosh e gritos dos fãs e falando que tem PIX e CPF (Cadastro de Pessoas Físicas), o inglês concedeu uma proximidade maior com o pessoal que se dispôs a aclamá-lo. A produção muito bem azeitada, com telão rompendo com demônios e toda sorte de clichês do metal, ajudaram o grupo a sair com saldo positivo do palco.
O último a entrar em cena lançando mão de recursos tecnológicos foi o Bad Omens. O que Oli Sykes tem de carisma e se propõe a deixar o público à vontade, Noah Sebastian fica devendo neste quesito. Bad Omens – assim como o superestimado Falling in Reverse – é banda de rede sociais, com vídeos cinematográficos que deixam as produções de Hollywood se contorcendo de inveja; no entanto, para o palco, tudo é frio e insosso.
A maratona musical fechou com Avenged Sevenfold reforçando que nada supera o verdadeiro talento musical e artístico.
Apesar do atraso de meia hora, o que colaborou para acentuação da fatiga física, e problemas técnicos, que fragmentaram a dinâmica e condução do show, o quinteto garantiu a segunda e última cota de solos e riffs virtuosos e cozinha parruda do Palco Mundo – a primeira cota ficou na conta do Sepultura, cabe lembrar.

Nightmare, Afterlife, Shepherd of Fire, Buried Alive, Nobody, Bat Country e Hail to the King foram alguns dos sons que levantaram a galera. Com a simpatia de sempre, M. Shadows conduziu o público sem dificuldade ao fantástico mundo do Avenged Sevenfold, que flerta com metal progressivo, metalcore e hard rock.
Além do quesito humano, a produção de palco, com direito a labaredas e fogos de artifício, colaborou para que a imersão ao universo do conjunto fosse profunda. A despeito de toda dificuldade técnica que a banda enfrentou, o saldo final foi positivo.
Para quem curte rock e metal o Rock In Rio 2026 terminou ontem, 5, com a apresentação de M. Shadows, Zacky Vengeance, Synyster Gates, Johnny Christ e Brooks Wackerman.
Se olharmos sob a ótica do copo meio cheio foi um evento bem organizado e funcional no que tange infraestrutura e logística, com uma pluralidade de opções entretenimento como tirolesa, roda-gigante e montanha-russa, além de ativações das marcas patrocinadoras e uma infinidade de opções gastronômicas e outras tantas alternativas para gastar grana.
Todavia, se analisarmos sob o enfoque do copo meio vazio, o festival trouxe uma escalação roqueira frágil, priorizando nomes modernos que boicotam a essência artística da música, que é o ao vivo, real e quente – inclusive com margem para erros -, em detrimento de performances plásticas “perfeitas”.
Seja a ótica positiva ou negativa, não tem como esvaziar a importância do Rock In Rio para a agenda cultural nacional e para a cidade do Rio de Janeiro. Esperamos que a edição 2028 aconteça com uma escalação metal e rock mais caprichada.
