“Uso rosa, sou de esquerda, vegana e não bebo, isso é diferente da norma do metal”, afirma Fernanda Lira (Crypta)

A cena heavy metal sempre foi um universo mais voltado ao público masculino. Durante muitas décadas, o percentual de mulheres que se atreveram a pisar num palco era baixo. De uns tempos para cá, a bolha furou e vemos mais mulheres tocando, produzindo, organizando e fazendo o mercado musical girar.

No Brasil, a vocalista e baixista da Crypta, Fernanda Lira, é uma das vozes mais proeminentes nesta mudança que é positiva. No entanto, o preço que a artista paga por ser esta voz ativa é bastante salgado.

Em entrevista ao TMDQA, a artista falou sobre o hate que recebe nas redes sociais por ser mulher à frente de uma banda de metal e por suas convicções pessoais.

“É preciso entender que qualquer pessoa que estiver em destaque vai receber hate”, começou Lira. “Quando essa pessoa é uma mulher, o hate dobra. Ainda mais quando é uma figura pública que é uma mulher em um meio historicamente predominantemente masculino, e ainda mais quando é uma pessoa que, além de tudo isso, ainda dá uma desafiada na norma”.

Fernanda continuou: “E eu não faço de propósito! Eu uso rosa, eu sou de esquerda… é quem eu sou, gente, o que eu posso fazer? Eu nasci assim, cresci assim. Só que é isso: é vegana, não bebe… isso é diferente do estereótipo, da norma ‘não oficializada’, mas muito vigente do metal.

Ainda estou no processo de separar quem eu sou, a Fernanda Lira que está aqui com meus amigos, e quem sou como Fernanda Lira que as pessoas criaram no imaginário delas. Aí eu entendi que o hate que eu recebo é por conta dessas várias camadas de exposição e de personalidade, de transparência”.

“Não é fácil. Não vou falar que é fácil. Você vê muita gente que não te conhece, que você nunca fez nada, que você nunca viu, criando teorias sobre você, te xingando, ofendendo, criando material pornográfico com você nas redes – porque isso existe, e é uma coisa que eu vou falar mais com o tempo”, acrescentou.

Lira concluiu: “É difícil porque você fala: ‘Poxa, cara, você nunca trocou uma ideia comigo’. Eu não sou esse monstro, sabe? Acho que qualquer pessoa que recebesse esses comentários… Poxa, os meus amigos, familiares, companheiros, veem ali o que falam e todo mundo fica mal junto comigo porque é complicado, é pesado.

Não é só tipo: ‘Ela é chata, feia e boba’; eu já recebi ameaça de morte. Não é fácil. Mas eu aprendi a separar, entender por que existe esse hate, entender que a pessoa com um destaque vai estar ali e, quando é mulher, é pior ainda. Mulher que se posiciona, então, pior ainda”.

Deixe um comentário (mensagens ofensivas não serão aprovadas)