Duas semanas se passaram desde que a nação de camisas pretas se encontrou em São Paulo para o seu aguardado compromisso anual com o “brabo” festival Bangers Open Air, e a ressaca ainda parece difícil de ser superada. Ao mesmo tempo, oitenta por cento dos ingressos antecipados para a edição de 2027 já foram vendidos, segundo informações do próprio festival, o que constitui evidência da confiança estabelecida com o público. Mas, para todos os efeitos, o que faz esse festival ser especial?
Hospedado mais uma vez no Memorial da América Latina, o festival chegou à sua quarta edição em 2026, sendo a segunda já sem o nome e a curadoria do alemão Summer Breeze. Todavia, se restavam dúvidas quanto à capacidade da equipe organizadora de caminhar com as próprias pernas e manter o alto nível de qualidade estabelecido em 2023 e 2024, essas dúvidas vão se dissipando à medida que o Bangers vai ganhando corpo e estabilidade a cada nova edição.
Felizmente, as premissas continuaram as mesmas: fazer um festival de metal em escala menor, mas nos moldes dos melhores do mundo, como Wacken, Hellfest, Graspop e o próprio Summer Breeze.
Isso significa romper drasticamente com o enfadonho modelo brasileiro de “festival” de 6 bandas, com os mesmos headliners de sempre, filas intermináveis, pão com salsicha seca por 50 reais e um clima que mais parece um medíocre jogo de futebol do que um grande evento de heavy metal.
Em suma, o público brasileiro não precisa mais se conformar com um produto inferior e ainda bater palmas, visto que nós também merecemos o melhor. Cada um pode ter o seu favorito, claro, mas ninguém poderá negar que a atmosfera do Bangers é diferente.
Se em outros eventos a melhor parte acaba sendo tomar cerveja e comer churrasquinho do lado de fora até o último minuto, no Bangers a folia começa cedo. Os shows simultâneos para escolher durante o dia todo, a excelente oferta de comida e bebida com preços adequados, as lojinhas que fazem qualquer headbanger querer largar o salário do mês, o jingle promocional do evento, o aspecto visual e as diversas ativações extras que conversam com o universo do metal, tais como cultura medieval, tatuagens e filmes de terror, ajudam a criar essa experiência diferenciada.
Para quem quer acelerar no goró, o destaque são as várias versões de hidromel e do whisky Jack Daniels, que mantém parceria longeva com o festival, um gol de placa da organização.
Para quem quer um pouco de conforto (e quem não quer?), tem água de coco no bar, pontos de hidratação com água potável gratuita, áreas com sombra, banheiros limpos sem filas e um galpão com ar condicionado. E a melhor notícia é que o evento ocorre ao lado de uma estação de metrô na região central de São Paulo e termina pontualmente às 22h, uma maravilha para a mobilidade.
Aliás, com sua logística facilitada e layout de espaços distribuídos, o Memorial segue disparado como a melhor escolha possível na cidade. Outro acerto da organização foi abandonar a ideia de fazer um terceiro dia de festival.
Essa ideia surgiu em 2024, mas em plena sexta-feira e com um lineup visivelmente mais fraco do que os outros dias. Não emplacou! Em 2025, a sexta-feira foi reduzida a um pré-festival com condições especiais, e em 2026 foi transferida para o clube Audio, o que parece ser o formato mais apropriado.
Por outro lado, em 2026 houve a intenção consciente de encher o festival desde a primeira hora, com a escalação de boas bandas para abrir os dois dias, e o resultado esperado foi atingido.
Apesar de tantos pontos de destaque positivo, sempre há oportunidades de melhoria. O merchandising oficial não teve bom planejamento de estoque em 2026 e precisa ser revisto, pois várias camisas licenciadas esgotaram muito cedo. A venda de comidas e bebidas mudou de cashless para pagamento a cada item, o que aumentou as filas desnecessárias em relação aos outros anos.
Além disso, a produção poderia avaliar a colocação de alguns banheiros próximos aos bares dos palcos principais e o retorno do stand de comida alemã (que sumiu em 2025), um dos mais interessantes para a experiência do evento.
Por fim, vamos às bandas. O grande trunfo do Bangers sobre outros eventos é ser um festival de heavy metal, de verdade mesmo.
Isso significa trazer bandas de estilos diversificados, sem baboseira de “dia temático”, além de priorizar as bandas que estão no auge e vêm dominando o circuito principal do metal global na última década.
É a primeira vez que o público brasileiro tem a felicidade de poder ver gigantes como In Flames, Arch Enemy e Within Temptation (segunda vez), acostumadas a serem co-headliners para 80 a 120 mil pessoas nos maiores festivais open air, tocando em seu habitat natural, ao invés de palcos secundários ou biroscas xexelentas na noite de terça-feira.
Além dos headliners, o lineup é abrilhantado por superestrelas em ascensão como Jinjer, revelações bacanudas como Lucifer, bandas divertidas como Amaranthe, Feuerschwanz e Visions of Atlantis (um dos grandes destaques do festival, mesmo tocando ao meio-dia) e bandas cult como Nevermore, sem esquecer de valorizar a cena nacional. Para mais detalhes sobre os shows, veja nossa resenha de sábado aqui e de domingo aqui.
Para que o Bangers continue sendo o “brabo”, essa premissa não pode se esvaziar. A produção não pode cair na tentação de agendar bandas batidas e supervalorizadas artificialmente, nomes que têm o contato facilitado por antigas panelas de produtores brasileiros, ou chorumelas afins.
Ou seja, deve continuar conectado ao circuito global, praticando as lições aprendidas com o Summer Breeze e rechaçando as velhas práticas tão comuns no circuito nacional, pois seu sucesso está exatamente em fazer diferente. A verdade é que, se todas as premissas forem mantidas, o Bangers vai continuar fazendo outros eventos parecerem o churrasco da firma.