Green Day: Uma Celebração A Boa Música E Diversidade Em Porto Alegre

O que define a qualidade de um show: o local? Fãs? Banda? Repertório? A qualidade sonora? Seja qual for a sua resposta, o Green Day se enquadra em todos os quesitos e muito mais. Com uma energia impressionante, local adequado, público enlouquecido e um set list de quase três horas, o Green Day voltou a dar um espetáculo na cidade.

Sete anos depois de sua estreia em Porto Alegre, a banda californiana retornou à capital gaúcha para mais um show de tirar o fôlego dos fãs. Completando 30 anos de formação, o grupo, que foi a trilha sonora de duas gerações em fases bem distintas, está divulgando seu mais recente trabalho, o muito bom Revolution Radio.

Se nos anos 90 o trio era mais despojado e com um punk mais cru, nos anos 2000 atingiram uma maturidade musical e em suas produções que foram responsáveis por uma nova geração de fãs, sem perder os mais antigos, já que os riffs e os coros estavam sempre presentes.

Se em 2010 o show foi no Gigantinho, o grupo, agora, se apresentou no estádio Beira-Rio. Palco da Copa do Mundo de 2014, o estádio passou a receber um grande número de shows desde então. Por lá já passaram Rolling Stones, Aerosmith, Guns N’ Roses, Elton John, Bon Jovi, Paul McCartney, The Who, Def Leppard, entre outros.

O Beira-Rio pode receber shows para até 50 mil pessoas no formato estádio, até 24 mil pessoas no formato anfiteatro ampliado e até nove mil pessoas no formato anfiteatro. Nesta noite, a opção escolhida foi o formato anfiteatro ampliado, que mantém o status de show em estádio, mas com palco mais perto das arquibancadas e pista reduzida, deixando agradável a todos os presentes e à banda que fica mais próxima dos fãs e com o local mais “lotado”.

Obedecendo a lei local, a Vera Loca foi a banda gaúcha responsável pelo primeiro show da noite. Nome bastante conhecido na cidade, a apresentação foi um bom aquecimento para os “gringos”. O grande destaque foi para Borracho Y Loco, a música mais famosa da banda e dedicada ao Green Day e a todos que estavam bebendo desde cedo. O show teve 30 minutos de duração e deixou uma imagem positiva para os fãs.

Acompanhando o Green Day na turnê sul-americana, o The Interrupters teve a tarefa de empolgar os presentes e mostrar o seu som pouco conhecido por aqui. Com um Ska Punk de respeito, os três irmãos Kevin, Justin e Jesse Bivona e a vocalista Aimee Interrupter fizeram um belo show. O tom vocal de Aimee lembra muito Brody Dale, do The Distillers, e combina perfeitamente com a proposta musical exibida. Também com 30 minutos, agradaram em cheio botando todo mundo pra dançar com destaques para By My Side, This is the New Sound e Family, que fechou o show.

Era chegada a grande hora! Às 20h55 começa Bohemian Rhapsody (Queen) aquecendo os PA’s seguida de Blitzkrieg Bop (Ramones) para delírio geral que cantou alto o Hey Ho, Let’s Go. Quem comandou a plateia durante as músicas foi o Drunk Bunny cor de rosa que está sempre lá antes dos shows do Green Day.

Às 21h04 a banda invade o palco com Know Your Enemy para êxtase dos quase 20 mil fãs que lotavam as arquibancadas e pista. Durante a apresentação, o primeiro fã surge no palco, Billie Joe o recebe com um abraço e deixa o microfone com ele, segurando um balão verde, o fã não se intimida e só para quando Joe o leva para um mosh com o público.

Sem pausa, vem Bang Bang, uma das novas. O pano de fundo é alterado e a banda entra no clima da tour atual. Show de fogos no palco para a faixa título de Revolution Radio, as duas são muito bem recebidas pelo público, que já assimila perfeitamente o trabalho.

Seguem com Holiday, ainda sem qualquer diálogo com o público, mas tendo todos pulando, cantando e gritando junto com a banda. “Desliguem as luzes”, pede Billie. “Viva o Brasil sem homofobia e sem Donald Trump, isso é Brasil”, gritou o vocalista empunhando uma bandeira do país.

Letterbox dá sequência ao show com Billie Joe novamente se derretendo ao país e a cidade: “Sim, sim, sim, Porto Alegre! Sim, Brasil! Isso é paixão, amor e alegria, isso é o que nós queremos, porque o que vocês sentem é o mesmo que nós sentimos pelo rock n’ roll, e nós amamos rock n’ roll”. Segue ele com um dos grandes discursos da noite: “Não importa se você é hétero ou gay; branco ou negro; porque, hoje, essa noite, isso não é uma festa noturna, é uma celebração. Vocês são os melhores cantores do mundo, e esse será o melhor show da história do Green Day. Vocês não querem isso? Não querem ficar loucos? Me mostrem, me mostrem, me mostrem”, exclama o vocalista para o grande entusiasmo de todos.

Na primeira calma da noite um momento todo especial para Boulevard of Broken Dreams: “Finalmente voltamos aqui, muito obrigado. Essa música é dedicada a todos que se sentem um perdedor ou estranho, pois, hoje, estamos todos aqui juntos”, diz Billie. Durante a apresentação da música, o cantor pede que todos liguem as luzes do celular, sendo prontamente atendido com até os clássicos isqueiros, o tradicional entre os mais antigos.

Cheio de conversas e diálogo com o público, ele diz que está gostando de ver que poucas pessoas estão com celulares filmando o show: “Não precisamos do Facebook e dane-se o Twitter, vamos viver o agora”. Em Longview, dedicada aos fãs old school, Billie pede alguém louco e capaz de cantá-la, e uma fã sobe ao palco. Billie divide o microfone com a fã que fica com a missão de dar seguimento ao show. Dessa vez, sem levar a guitarra de Billie como aconteceu em 2010.

“Quantos fãs das antigas temos aqui? Essa é 200 Lights Years Away”, a única de Kerplunk. Billie com um jato atira água nos fãs dando uma aliviada no calor e no suador causado nos 50 minutos de apresentação até ali. Com sua máquina de lançar camisas joga presentes aos fãs e anuncia Armatage Shanks, seguida de J.A.R. e F.O.D. Em seguida, avisa que vem uma de Nimrod, mais uma surpreendente no set list: a clássica Scattered. A cadenciada Hitchin a Ride agrada em cheio com suas interações entre a banda e os fãs.

Sem deixar o público respirar vem When I Come Around, um dos maiores sucesso comerciais; She, outra super popular, faz todos se jogarem nas rodas de moshpit. Tré Cool rufa os tambores, quase como uma banda marcial, e o grupo segue em ritmo frenético com Minority. Os fogos no palco, as explosões e o público inteiro pulando na pista e nas arquibancadas fizeram deste um grande momento.

“Obrigado, obrigado, obrigado e, mais uma vez, obrigado”, agradece Billie Joe, que aproveita para apresentar a banda, um a um,  e não apenas o trio, mas todos os músicos de apoio que são a cozinha do grupo e os que acompanham nas turnês há anos.

Em Are We The Waiting um dos momentos mais emotivos da noite, não bastasse a melodia e suas letras, Billie, primeiro, aparece com uma bandeira em arco-íris representando a igualdade, e na sequência, como um bom show de punk, com uma bandeira com os dizeres: “Fora Temer” e “No Trump”, para delírio de, pelo menos, 97% dos presentes. A sequência vem com a rápida St. Jimmy, dobradinha no álbum American Idiot.

Finalmente um descanso, hora do carismático Tré Cool com um solo de bateria e uma levada jazz no palco, mas dura pouco e o grupo volta com Knowledge, cover de Operation Ivy, que tem feito parte do setlist da banda. “Quem aqui toca guitarra? Homem, mulher, criança, quero o melhor guitarrista do Brasil”, avisa Joe que vai de um lado para o outro do palco procurando um músico até encontrar uma garota com sua blusa verde que sobe ao palco e beija o vocalista. Janine toca com o grupo, tira onda no palco e, de bônus, ganha de presente a Les Paul preta que ela usou no palco, sendo ovacionada pelo público. Basket Case é um petardo nos fãs que deliram e cantam a plenos pulmões.

Em uma noite marcada pela diversidade e respeito ao próximo, King for a Day cai como uma luva na apresentação. Durante a execução desta, o saxofonista toca Garota de Ipanema, a mais famosa música brasileira de todos os tempos. Uma linda homenagem ao país e a Vinicius de Morais e Tom Jobim. Tré Cool ainda vai à frente do palco com uma alegoria digna de Carnaval de blocos e faz sua interação pessoal enquanto Billie Joe vai para a bateria.

Deitado no chão Billie se declara de novo aos fãs, falando que ama o país e que esse é um dos melhores shows da banda: “Sem brincadeiras, falando sério, nós vivemos em um mundo cínico e negativo nas TV’s e computadores, dane-se isso tudo, eu quero viver minha vida com grandes amigos, grandes músicas e grandes pessoas e é isso que estamos fazendo, ficando juntos, sem políticos nos dividindo, porque nós queremos mais e queremos agora”. Em um medley que inclui Shout (Isley Brothers),Always Look on The Brighter Side of Life (Monty Python), Satisfaction (Rolling Stones) e Hey Jude (Beatles), ele faz todos se abaixarem e terem um momento de descanso antes de pedir a todos que pulem feito loucos.

Mais duas novas: Still Breathing foi um momento de muita emoção, ao menos para os fãs de Chester Bennington e Linkin Park, onde um fã joga uma camisa da banda no palco e Billie Joe interpreta a canção apontando para o nome do grupo. Forever Now encerra o show com ótimo retorno dos presentes.

Claro que tínhamos o bis, já que diversas faixas importantes ainda faltavam na apresentação. O grupo volta e de imediato a dobradinha: American Idiot e Jesus of Suburbia relembra um dos mais importantes discos de rock dos anos 2000. Os mais antigos torcem o nariz para o álbum, mas é inegável a qualidade da banda com este material e a maravilhosa apresentação ao vivo.

Billie Joe pega agora seu violão e vai para encerrar de vez com dois momentos bem intimistas com 21 Guns, que ganhou uma versão acústica de arrepiar, e Good Riddance (Time of Your Life) encerra tudo com a plateia cantando consoantemente.

“Obrigado pela melhor tour no Brasil que já tivemos; obrigado por uma noite que nunca vamos esquecer”, encerra Billie. A banda se despede com a certeza de ter feito mais um grande show em sua carreira, e os fãs agradecem por mais uma oportunidade de vivenciar mais um show do Green Day.

Em suas quase três horas de apresentação, o Green Day passou por todas suas fases, mas faixas como Welcome to Paradise, Wake Me Up When September End, Burnout ou Nice Guys Finnish Last fizeram falta. No entanto, no final das contas, ninguém se importou muito, já que a noite estava completa e conquistada, e o desejo é um só: retornem logo ao Brasil.

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